Podemos escolher mais do que nossas mães e avós, mas será que nos sentimos livres para escolher?

As mulheres conquistaram possibilidades que muitas de nossas mães e avós não tiveram. Mas, entre poder escolher e se sentir verdadeiramente livre para fazer uma escolha, ainda existem expectativas, culpas e aprendizados que atravessam nossa história.
Recentemente, uma reportagem do Globo Repórter colocou lado a lado histórias de mulheres de diferentes gerações para mostrar o quanto a vida das brasileiras mudou nas últimas décadas. Segundo os dados do IBGE apresentados na reportagem, até a década de 1960 as brasileiras tinham, em média, mais de seis filhos. Em 2022, esse número havia caído para 1,55 filho por mulher.

Mulheres passaram a estudar por mais tempo, ter menos filhos, adiar a maternidade, investir mais na vida profissional e construir outras possibilidades de relacionamento e independência. Mas talvez uma das mudanças mais importantes não possa ser medida apenas em números, pois muitas de nós agora temos uma coisa incrível: mais possibilidades de escolha de como viver a própria vida.
Para muitas de nossas avós, casamento e maternidade não apareciam exatamente como decisões de vida, na real era o que tinha e estava posto pra elas, simples assim. Eram apresentados como o percurso natural da vida feminina. Estudar, construir uma carreira, morar sozinha, divorciar-se, decidir não ter filhos ou simplesmente desejar uma vida que não estivesse organizada prioritariamente ao redor do cuidado de outras pessoas eram possibilidades muito mais restritas e, dependendo do contexto daquela mulher, sequer existiam.
Mas isso mudou de certa forma, que bom! Mas será que, emocionalmente, conseguimos mudar na mesma velocidade?
Cada geração abriu possibilidades para a seguinte
Uma das histórias apresentadas pela reportagem ilustra muito bem essa transformação. Enquanto uma bisavó da família teve 19 filhos, Vilma teve apenas uma filha. Ela concluiu o ensino médio e criou essa filha sozinha. Na geração seguinte, sua filha chegou ao pós-doutorado e tornou-se professora universitária.
Existe algo muito significativo nessa passagem. Não porque mulheres que tiveram muitos filhos tenham necessariamente desejado outra vida, nem porque uma trajetória acadêmica seja superior à maternidade ou ao trabalho doméstico. A questão é outra, a geração seguinte passou a ter acesso a possibilidades que antes estavam muito mais distantes das mulheres.
E essas possibilidades não surgiram naturalmente com o passar dos anos. Elas são resultado de transformações sociais, maior acesso à educação, entrada das mulheres no mercado de trabalho, mudanças nas legislações, métodos contraceptivos e das lutas de muitas mulheres para que aquelas que viessem depois, pudessem ocupar espaços que durante muito tempo lhes foram negados.
Cada geração encontrou algumas portas abertas e precisou empurrar outras para atravessar e partir para o próximo degrau. Por isso, olhar para nossas mães e avós também pode ser uma maneira de compreender de onde vieram algumas das expectativas que ainda carregamos.
As possibilidades mudaram mais rápido do que os roteiros

Hoje uma mulher pode estudar, construir uma carreira, morar sozinha, casar mais tarde, não casar, divorciar-se, escolher outros formatos de relacionamento, decidir ter filhos mais tarde ou não tê-los. No entanto, ampliar possibilidades não significa apagar séculos de socialização feminina.
Desde muito cedo, meninas ainda recebem mensagens sobre o que significa ser uma “boa mulher”. Aprendem, por diferentes vias, a cuidar, antecipar necessidades, preservar relações, evitar conflitos e considerar o impacto de suas escolhas sobre as pessoas ao redor. Naturalizando nosso foco e investimento de energia ao outro e não a nós mesmas.
Isso aparece nas brincadeiras, nas expectativas familiares, nas histórias que consumimos, na forma como comportamentos semelhantes são avaliados de maneira diferente em meninos e meninas e até nas perguntas que começamos a receber conforme envelhecemos. Quem nunca ouviu esse tipo de frase em encontros familiares?
“E os namoradinhos?”
“Quando vai casar?”
“E os filhos?”
“Você não tem medo de ficar sozinha?”
Essas perguntas parecem pequenas quando observadas isoladamente. Mas fazem parte de um contexto muito maior no qual casamento, cuidado e maternidade foram historicamente apresentados como elementos centrais da realização feminina, como se esses aspectos pertencessem a identidade da mulher.
É por isso que não basta dizer que hoje “a mulher pode escolher”. Claro que pode juridicamente e socialmente muito mais do que antes e até economicamente em determinados contextos. Mas existe também uma dimensão subjetiva da liberdade.
Porque escolher algo diferente do esperado exige recursos emocionais para lidar com a desaprovação, julgamento social, a culpa, o medo de decepcionar e, algumas vezes, com a sensação de estar fazendo alguma coisa errada mesmo quando racionalmente sabemos que não estamos.
“Eu quero ser mãe?” pode ser uma pergunta muito mais complexa do que parece
Talvez poucas decisões evidenciem tanto esse conflito quanto a maternidade. Para algumas mulheres, ser mãe é um desejo claro e importante. Para outras, não ter filhos também é uma decisão muito clara e existem aquelas que habitam um território muito menos falado, a dúvida.
“Eu quero mesmo ser mãe?”
“E se eu decidir não ter filhos e me arrepender?”
“E se eu tiver e descobrir que não era o que eu desejava?”
“Será que essa vontade é minha ou surgiu porque sinto que meu tempo está acabando?”
“Eu quero um filho ou tenho medo de perder a possibilidade de ter um?”
“Como essa escolha afetaria meu relacionamento, minha carreira e a vida que construí?”
Não existe nada de errado em não conseguir responder imediatamente a essas perguntas, principalmente porque a decisão sobre a maternidade não acontece em um espaço vazio. Existem diversos fatores como o corpo, a idade, o contexto econômico, pode existir um relacionamento ou a ausência dele. Tem também as expectativas familiares, condições de trabalho, rede de apoio e projetos construídos ao longo de uma vida.
E há uma sociedade que ainda trata a maternidade de maneira contraditória, já que espera que mulheres desejem ser mães e, quando elas se tornam mães, frequentemente oferece pouco suporte para que consigam sustentar todas as demandas que acompanham esse lugar. Por isso, dizer simplesmente “faça o que você quiser” pode parecer libertador, mas às vezes é insuficiente.
A pergunta mais difícil pode ser justamente, como reconhecer o que eu quero em meio a tantas vozes dizendo o que eu deveria querer?
O medo do arrependimento também pesa de formas diferentes
Quando uma mulher está em dúvida sobre a maternidade, é muito comum que apareça o medo de se arrepender de não ter tido filhos e esse medo merece ser acolhido. Falamos bastante sobre a possibilidade de uma mulher se arrepender de não ser mãe, mas se fala muito menos sobre a possibilidade de uma mulher descobrir, depois da maternidade, sentimentos ambivalentes em relação à escolha que fez.
Isso não significa que todas as mulheres se arrependam de seus filhos, nem que a maternidade necessariamente só produza sofrimento. O que precisamos reconhecer é algo profundamente humano, nenhuma escolha importante oferece garantia absoluta sobre aquilo que sentiremos no futuro.
Afinal escolher sempre implica em abrir mão de outros caminhos possíveis. Amadurecer uma decisão pode não ser encontrar aquela que elimina completamente o medo do arrependimento, mas compreender qual escolha faz mais sentido diante de quem você é, do contexto em que vive e da vida que deseja construir hoje.
Independência não significa necessariamente liberdade interna
Uma mulher pode ter independência financeira, formação acadêmica, morar sozinha e tomar as próprias decisões e, ainda assim, sentir uma culpa enorme quando escolhe algo que contraria expectativas. Porque autonomia não é apenas conseguir pagar as próprias contas.
Existe uma autonomia subjetiva que envolve reconhecer desejos, sustentar limites, suportar a possibilidade de desagradar e perceber quando estamos organizando nossa vida ao redor de expectativas que talvez nunca tenhamos escolhido conscientemente.
É nesse ponto que muitas conquistas coletivas encontram conflitos profundamente individuais.
As mulheres que vieram antes de nós ampliaram o campo de possibilidades, mas nenhuma conquista histórica consegue decidir por uma mulher o que ela deve fazer com essas possibilidades. E talvez nem devesse.
Liberdade não é trocar um roteiro obrigatório por outro
Existe ainda um outro cuidado importante nessa conversa, ao questionarmos o antigo roteiro segundo o qual uma mulher deveria casar, ter filhos e dedicar sua vida prioritariamente à família, podemos acabar criando outro modelo igualmente rígido de mulher considerada “livre”.
Agora ela precisaria ser independente, altamente escolarizada, bem-sucedida profissionalmente, sexualmente segura, emocionalmente resolvida, viajar, morar sozinha, não depender de ninguém e talvez até enxergar casamento e maternidade com alguma desconfiança.
Isso também pode se transformar em uma prisão, pois uma mulher não é menos livre porque deseja profundamente ser mãe. Assim como não é incompleta porque não deseja. Não é menos independente porque deseja construir uma vida a dois e também não fracassou porque percebeu que determinado relacionamento já não faz sentido para ela.
A liberdade que tantas mulheres lutaram para ampliar não deveria servir para determinar um novo jeito correto de ser mulher. Ela deveria aumentar o leque de opções de vidas possíveis.
Afinal, o que você deseja para a sua vida?

Uma das mulheres entrevistadas pela reportagem casou-se aos 17 anos, teve filhos e, anos mais tarde, formou-se em fisioterapia. Depois de ficar viúva, descobriu o turismo de aventura e passou a viajar sozinha. Quando perguntada se aquela vida anteriormente dedicada à casa, ao marido e aos filhos era pouco para ela, respondeu que sim. Sentia-se profundamente insatisfeita.
Essa fala me chamou atenção porque
toca em algo que considero central, uma vida pode parecer completamente adequada quando observada de fora e, ainda assim, não fazer sentido para a mulher que está vivendo dentro dela. Durante muito tempo, a pergunta dirigida às mulheres parecia ser: “Você está cumprindo adequadamente aquilo que esperam de você?”
Talvez agora possamos construir espaço para outra: “Que vida faz sentido para você?”
Essa pergunta pode não trazer uma resposta imediata, mas pode ser especialmente angustiante quando existe a sensação de que uma decisão precisa ser tomada logo, como acontece com muitas mulheres que estão refletindo sobre maternidade.
Mas não ter certeza também faz parte de alguns processos importantes de escolha.
Talvez uma das heranças mais valiosas deixadas pelas mulheres que vieram antes de nós seja justamente a ampliação das possibilidades. Algumas abriram caminhos que sequer puderam percorrer. Outras conseguiram caminhar um pouco mais longe e hoje encontramos diante de nós escolhas que muitas de nossas avós dificilmente poderiam imaginar.
E existe uma pergunta que nenhuma geração consegue responder pela seguinte: Diante de todas essas possibilidades, que vida faz sentido para você?
Talvez o trabalho não seja encontrar uma resposta capaz de garantir que você nunca se arrependerá, nunca terá dúvidas ou nunca será julgada. Mas de conseguir diferenciar, aos poucos, aquilo que você deseja daquilo que aprendeu que deveria desejar.
Porque liberdade não é escolher necessariamente a carreira, a maternidade, o casamento, a independência ou qualquer outro caminho. Liberdade é ter autonomia para poder construir uma vida na qual suas escolhas não precisem provar se você é ou não uma mulher suficientemente boa.
E, às vezes, compreender qual vida realmente faz sentido para você exige tempo, elaboração e um espaço em que seja possível pensar sobre essas questões sem receber mais uma resposta pronta sobre quem você deveria ser.
Se você sente que está vivendo um momento de escolhas, dúvidas ou mudanças e gostaria de compreender melhor o que deseja para a sua vida, a psicoterapia pode ser uma via para elaborar essas questões considerando a sua história, seus recursos emocionais e o contexto no qual suas escolhas estão sendo construídas.
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